Quem é o mestre? Chi Fu!* por Cylon Liaw

*mestre em chinês tem a mesma pronúncia que Chi Fu, porém com outra escrita, além desta pergunta ter sido popularizada pelo vilão Sho’nuff, no filme “O Último Dragão”.

Antes de começar a escrever sobre a lenda da culinária chinesa (vulgo Chi Fu), a pedido da absoluta Elizão, agradeço a oportunidade de representar a cultura chinesa num espaço democrático dedicado à arte da gastronomia.

Pois bem, iniciei minha pesquisa por referências sobre a culinária chinesa em SP, em especial os cardápios da Lig-Lig, China in Box e China House. Explico: alguns paulistanos são ocupados ou cômodos demais para sair do conforto de suas casas e visitar um típico restaurante chinês, então resolvi investigar o que estes comensais entendem por “gostar de comida chinesa”.

Para o meu espanto, além dos “tradicionais” yakissobas e do trio carne/frango/peixe com as mesmas combinações de molhos, deparei-me com algumas aberrações: Rolinho de Queijo (desde quando levaram o provolone pro Oriente?), Rolinho de Pizza (naturalmente os chineses curtem uma rodela meia Aliche e meia Frango com Catupiry®…) e Carne com batata imperial (nome espetacular para batata frita) como especialidades.  O pior de todos foi o China Kids oferecido pela China House: kit composto por 6 nuggets de frango, 8 mini rolinhos de provolone, 2 mini bananas carameladas e um suco Kapo®. Que diabos é isso? Além de ser um “Kit Entope Artérias”, nossas crianças estão sendo enganadas desde cedo…

Vamos fazer um teste: pronuncie despropositadamente o nome Chi Fu para alguns colegas e veja a reação destes. Certamente haverá um buxixo de proporções inesperadas, com relatos de experiências boas e ruins, gargalhadas e um desejo uníssono: quando iremos? A lenda sobre este digno representante da culinária chinesa perdura por mais de uma década puramente pelo boca-a-boca. Mas o que torna o Chi Fu a menina dos olhos cerrados na capital brasileira da gastronomia?

Cliente assíduo desde sua existência (quando ainda existiam 2 casas), posso relatar que o Chi Fu é fruto do trabalho ininterrupto de 2 casais e seu batalhão de funcionários, os quais mal falavam português, fato que gerava inúmeras experiências engraçadas com os ocidentais aventureiros. Esse adjetivo é bem propício pois o ambiente era dominado pela comunidade chinesa, mas que foi paulatinamente conquistando o paladar do paulistano, evoluindo do trivial yakissoba ao requintado pato de Pequim e ostras ao vapor, entre outros.

Sem querer, até na mídia o Chi Fu ganhou notoriedade: fora fechado pela Vigilância Sanitária. Engraçado saber que os antigos clientes nem se abalaram com a notícia pois já estavam habituados a ver sacos de lixo circulando pelos salões, cozinheiros fumando, garçonetes com bebês nas costas, tigelas besuntadas, sem contar os aquários opacos onde as tilápias suplicavam pelo abate. Por falar em garçonetes, isso merecia um capítulo a parte. Sorriso na cara e atendimento cordial? HELLOOOO!!! Pedir uma Coca a mais durante a refeição? Era uma boa oportunidade pra aprender um palavrão em chinês… só faltava elas sentarem na mesa pra pegar o pedido. Peraí, isso já me ocorreu…

Mas você deve pensar: atendimento ruim, ambiente imundo… pelo amor de Deus, existe algo que preste nesse lugar? A comida e o preço, meu caro comensal. Hoje situado em plena Praça Carlos Gomes, é impossível ignorar o cintilar que emana das paredes douradas deste colosso. O franzino chinês, que em outrora ocupava 2 singelas casas, cresceu e se instalou num prédio comprado e reformado com o suor de anos sem descanso. Ainda lembro da 1ª vez em que almocei nas novas instalações: ar-condicionado, elevador, banheiros limpos, cardápio português-chinês (ainda com erros ortográficos), garçonetes uniformizadas e rindo… UEPA! Rindo e ainda arranhando um português?

Quem acompanha a história deste restaurante entende a minha perplexidade ao deparar com fatos considerados comuns a um restaurante. Mas não ao Chi Fu. Seu mérito está na adaptação aos padrões ocidentais, o que trouxe mais clientela ávida pela culinária chinesa, mas sem se render ao gosto brasileiro, no que diz respeito aos temperos e culturas locais. Mas algumas atitudes ainda me remetem às origens deste prodígio: pessoas totalmente desconhecidas aglutinadas pelas garçonetes numa mesma mesa, a convidativa melancia “Say Goodbye”, o detergente nos banheiros, a ausência do “Visite nossa cozinha”… às vezes me pego pensando que antigamente a experiência de levar os amigos pro Chi Fu era como levá-los ao circo. Deliciosa e muito engraçada.

E cadê a comida? Ei-la, devidamente recomendada entre as mais de 200 opções disponíveis:

– Ostras ao vapor

– Peixe ao molho de soja

– Rã frita

– Pato assado

– Costela de porco ao molho agridoce

– a “Say Goodbye” melancia sempre doce

O preço dessa orgia gastronômica: juro que sai menos de 25 reais. E não vale pagar com cartão e muito menos cheque porque não aceitam! Vale a pena ir com a galera, já que as porções são fartas e o custo cai inversamente proporcional ao aumento no número de bocas. É sempre uma divertida experiência volta ao Chi Fu para provar novas modas de peixe, arriscar uma enguia, deliciar-se com camarões graúdos… a única coisa que não me recomendaram foi bexiga de peixe, acho que por razões óbvias hahaha

Curiosidade: reza a lenda que a origem sobre o nome Chi Fu surgiu na ocasião da formulação de seu letreiro. Sendo um restaurante com frutos do mar como especialidade, o dono teria dito Sea food, porém sua pronúncia carregada e de difícil compreensão supostamente direcionou para o atual Chi Fu, de mesma sonoridade e bem mais próxima à língua chinesa, mesmo não tendo significado algum. Mesmo que folclórico, de extrema criatividade e possivelmente inventada, bem que eu gostaria que a lenda fosse verdade hehehe

Endereço: Praça Carlos Gomes 200, Liberdade – São Paulo/SP – (11)3112-1698

Abre todos os dias, das 11h às 16h e das 18h às 22h.

PS: Como mencionado ao longo do texto, NÃO ACEITAM CARTÕES

POR CYLON LIAW

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7 Respostas para “Quem é o mestre? Chi Fu!* por Cylon Liaw

  1. O Chi-fu é mais que um restaurante. É uma experiência chinesa, em SP.

    Mas isso não significa que eu amei e nem que quero encontrar as simpáticas atendentes em breve. hahaha

    Valeu pelo post Cylon !!! Quero ver mais experiências gastronômicas suas por aqui ! Quem sabe das coxinhas e churros do velozão !

    bj

  2. Que exótico! Gostei 😉

  3. Um bom restaurante para os universitários que querem comer coisas diferentes, boas e sem gastar muito, afinal estamos sempre sem grana e ainda fica perto do metro.

  4. Mariana Lourenco

    Pitoresco! Intrigante também.

  5. Eu gosto deste restaurante. Na mesma lógica dos japas para japa, nele vão muitos chineses. Sendo assim é um restaurante com boa comida mas sem frufru e como vão chineses, que geralmente são mais comedidos quando a questão é dinheiro, também ganhamos com bom preço.

  6. Lucia Helena Santana

    Nossa, que experiência interessante essa.

    Um tanto quanto chinesa, eu diria também.

  7. Pingback: Receita de preparado para Cappuccino, por Edgar Yamamoto | Comi por aí

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